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A par e passo com a oportunidade
Mário Persona
O jovem Albino Buzolin estava inquieto. Da missa em latim, aquele descendente de italianos só entendia o "Amém". Seus pensamentos voavam, competindo em leveza com as baforadas que escapavam do incensário, balançado pelo sonolento coroinha. O único canto que chamava sua atenção naquele momento era o canto dos olhos. Este acabara de enxergar algo que fez o alarme de sua criatividade soar. A campainha do sonolento coroinha soou bem depois.
Meu avô fazia parte da geração de imigrantes italianos que deixara os cafezais do interior de São Paulo para se dedicar a pequenos ofícios na cidade. Mas há muito ele sabia que fabricar selas e arreios para cavalos era uma profissão que acabaria empacando com a buzina do progresso. Os automóveis haviam chegado para substituir de vez as carroças. Era preciso dar um passo decisivo na mudança de rumo de seus negócios. Mas que passo dar?
Os pés da imagem! Ali estava a solução, bem ao seu lado. O escultor, que tentara reproduzir aquele frade canonizado, certamente havia começado pelos pés. Para meu avô, era a única parte da franciscana imagem que havia sido esculpida com esmero. Havia até mesmo uma ênfase exagerada nos detalhes das sandálias. A verdade é que meu avô nem viu a imagem. Só enxergou os pés. O resto parecia imerso na neblina de um devaneio criativo.
As oportunidades estão onde e quando menos esperamos. Mas estão. Oportunidades parecem existir independentes de nós, quer as vejamos, quer não. O que diferencia os homens, é que alguns as vêem, enquanto outros não. Mas entre os que as vêem, temos ainda duas classes: a dos que as agarram e a dos que as vêem passar. George R. Kirkpatrick dizia que temos duas extremidades: uma para pensar, outra para sentar. O sucesso ou fracasso irá depender daquela que mais queremos usar.
Acostumado a lidar com couro, tiras e fivelas, não foi difícil para meu avô fazer uma cópia mental das sandálias, que pareciam confortáveis até naqueles duros pés de gesso pintado. Não, ele não pretendia fabricar sandálias toscas para pés franciscanos, mas um modelo mais feminino. Que tampouco estaria restrito às freiras. Albino e Maria Buzolin, minha avó, decidiram fazer daquele símbolo de humildade franciscana uma nova moda para as mulheres de sua época. O primeiro passo na transformação de sua humilde selaria de meia-sola numa bem-sucedida indústria calçadista. Um grande salto, sem dúvida.
As empresas passam, e não foi diferente com a indústria de meu avô, amalgamada numa fusão. Mas as lições
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